Banco Fácil: Não tema, agilidade é o nosso lema!
Um conto sobre banco, burocracia e a raiva que ela cria em todos nós ao termos que esperar em filas intermináveis para que possamos resolver algo simples.
Este texto foi originalmente publicado no Medium.
Um grande putaquepariucaralho, exclamado em uníssono por dois indivíduos que nada tinham a ver um com o outro (além da visível impaciência e a infelicidade geral para com os serviços), ecoou pelo Banco.
O Banco Fácil era comumente chamado apenas de Banco exatamente pelo fato incontestável de que fácil ele nada tinha. O lema da criatura de um andar desprovida de vigor era bem simples: “Não tema, agilidade é nosso lema!”, algo tão genérico quanto farmacêutico tentando empurrar aos clientes medicamento de marca, e provavelmente saído da mesma cabeça revolucionária que batizou aquela desgraça de concreto imitando arquitetura greco-romana de Banco Fácil.
Tanto o nome quanto o slogan genéricos eram uma…
— Uma puta mentira! Putaquepariucaralho!
Uma puta mentira, isso mesmo, como costumavam dizer os clientes minimamente exigentes antes da falência inevitável da empresa. E putaquepariucaralho!
Seu interior era estéril de bom gosto, composto por um piso de porcelanato técnico cinza tão sem graça quanto o de qualquer outro banco (somente para dar a certeza de que o Banco Fácil realmente não era tão especial assim), mesas de escritório brancas monótonas sob computadores e monitores Positivo estagnados no Windows 7 e nove guichês para dois atendentes lidarem com vinte clientes desprovidos de humor de uma vez.
Chatice.
E a pior parte de todas é que Pablo queria viajar. E precisava sacar o salário. E o banco não tinha aplicativo. Nada de pix, vadias; aqui nós fazemos à moda antiga, disse o dono uma vez sob a justificativa de que menos era mais, seja lá o que essa expressão significasse na cabeça senil dele.
O homem segurou sua camisa havaiana com desenhos de palmeiras pela barra, puxando-a com o intuito de controlar a própria impaciência na base de sua infame força bruta. De fato não queria que sua força bruta reprimida fosse alocada aos pobres atendentes dos guichês, optando por um autoflagelo sem sentido. A verdade indubitável era clara: ele queria esmurrar alguém com toda sua força.
Não, não apenas um alguém. Ele queria esmurrar a porra toda.
A porra toda.
Ele queria esmurrar a porra toda, menos os pobres funcionários que trabalhavam feito escravos naquele calor abafado de trinta e cinco graus de dezembro. Conseguia visualizar mentalmente o rosto do filho de uma meretriz conhecido apenas como “dono”. Não interessava para Pablo saber o nome do bastardo, almejava somente esmurrá-lo, deleitando-se com a imagem do dono com o nariz quebrado, o sangue escorrendo e os dentes da frente trincados depois de tanta porrada. O cretino provavelmente estava lá em sua salinha particular no canto do Banco com um pequeno ventilador virado para seu rosto, coçando o saco e ganhando dinheiro dando ordens arbitrárias para seus escravos.
Pablo, em um dos inúmeros momentos de tédio (chegara ali há cerca de três horas e ainda se encontrava na fila dos guichês), chegou a ponderar se o dono não era a reencarnação de algum senhor do café do século XVIII.
Farto da impaciência, encontrou sua verdadeira voz no berro esganiçado:
— CADÊ O DONO? — Ele sacudiu os braços tal como um velho rabugento de desenho animado. — CADÊ? CADÊ? CADÊ?
Todos olharam, incluindo uma criança sonolenta de shorts liso cinza, que encontrou o primeiro riso do dia e logo foi de encontro com a mão aberta do pai nas costas da cabeça.
— ALGUÉM ME FALA ONDE ESTÁ O DONO! — Pablo exclamou novamente. Desta vez, o tom subiu uma oitava. A voz desafinou no meio. — OnDE EstÁ O DooNO? Onde…
Em uma fração de segundo, Pablo testemunhou um garotinho de shorts cinza sendo arremessado por um pai furioso, a criança atigindo seu rosto impaciente como uma bala e ambos caindo e derrubando mais uns três na fila do Banco. Quatro, agora. Um quinto quase foi junto, porém conseguiu recuperar o equilíbrio por pura habilidade — era o equilibrista Tiroliro do circo local.
— Maiquipalhaçadaéessa? — Tiroliro bateu os pés, impaciente, ainda com o figurino de seu trabalho. Era um roupa elástica preta e bem apertada, remetendo Pablo a campeões olímpicos de ginástica. — Tão achando que tão no circo, é? Tão de bobaiada, é? Cês são bobo, é?
Ele é palhaço ou equilibrista?, ponderou Pablo, tentando se levantar e ajudando o garotinho, que não parava de chorar. Ele pôde ouvir os gritos do pai se misturarem com as reclamações de Tiroliro e dos outros clientes incapacitados ao lado.
— Tô aqui, na moralzinha, tentando sacar meu dinheiro honesto, e cês ficam vindo com essa bobajada de véi besta! — Ele gesticulou, quase como fazendo uma mímica. Era, sem dúvidas, um cirsense multitalentoso. — Vocês não tem vergonha, não? Miseráveis! É por isso que o circo vai fechar! Porque cês são tudo um bando de infeliz, tão entendendo? Infelizes!
A criança, que devia ter uns oito anos, suspendeu o choro, limpando o shorts cinza com as duas mãos, e disse:
— O circo vai fechar?
Tiroliro olhou para ela.
— Seu pai não te contou não, meu filho?
O garotinho fez que não.
— Como é que é seu nome, meu rapaz?
— Pedro.
— Ô, Pedro, deixa eu te contar um negócio. Circo não dá dinheiro, não. O que dá dinheiro é isso aqui, ó. — E fez um gesto apontando para tudo ao redor.
— Burocracia… — completou Pablo, já de pé e conferindo seu relógio de pulso.
— Burocracia, isso mesmo, seu…
— Pablo.
— Isso mesmo, seu Pablo!
— Burocra-quê? — indagou Pedro.
— Burocracia, meu filho. É o que os adultos fazem quando querem enrolar sua vida pra poderem ganhar dinheiro. Tipo — estalou os dedos três vezes, procurando uma palavra para exemplificar — , tipo golpista, sabe? É um golpe. Um golpe legalizado.
Tiroliro continuou, sem saber que Pedro estava interpretando erroneamente sua mensagem.
— É pra isso que estamos aqui, pra eles — apontou para a salinha em que o dono deveria estar — ganharem dinheiro, sabe?
Subitamente, o dono apareceu, perguntando aos gritos o que diabos estava acontecendo ali. Que furdunço é esse?, Pablo ouviu ele dizer. Todos da fila se viraram quase que imediatamente para o homem barrigudo, meio desajeitado, com o rosto bem emburrado. Na verdade, o homem parecia uma cruza entre o Papai Noel da Coca-Cola e o Dom Quixote, mas sem as renas, duendes e algum Sancho Pança para chamar de seu. Parecia bem solitário, e as lâmpadas de LED sob o teto apenas exageravam suas feições de velho gordo infeliz.
O menino Pedro foi correndo para o colo do pai — mesmo após ter sido arremessado tal como uma bola de basquete — , ignorando a chegada do gordão endiabrado, e disse:
— Pai, me ensina a ganhar dinheiro! — Ele sorriu. O seu progenitor sorriu de volta, maliciosamente.
O pai, ele sabia, era um dos mais importantes homens do CV. Não que o garoto soubesse exatamente o que era o CV ou o que o pai lá fazia — e jamais saberá, seu pai pensou, ou aí ele é quem vai ser atingido por uma bala. Anos depois, seu filho estaria trabalhando como bancário no Banco Itaú na Cidade de São Paulo, após tê-lo matado e enterrado a sete palmos pelo que fizera com sua mãe e todos ao seu redor. Ele queria esquecer o patricídio. Esquecer o passado e viver o agora. Ganhar dinheiro. Viver a burocracia.
Poucos segundos depois do abraço, após tanto ouvirem os gritos consternados e esganiçados do dono, todos os clientes insatisfeitos saíram da fila, inconscientes da verdadeira natureza dos outros ao redor, e uniram-se como se fossem um único ser. Um ser nutrido pela raiva dos burocratas.
Naquele momento, Pedro e seu pai já haviam saído do Banco. Pedro queria ganhar dinheiro, vencer na vida, e para isso seu pai não poderia ensiná-lo a mexer com facções como bancários, ou o filho cresceria e se tornaria um hipócrita, pobre e miserável.
Naquele momento, Pablo estava enfim esmurrando o dono junto de outras dezenas de clientes.
Naquele momento, o Banco Fácil teve sua falência decretada.
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