Crítica – Backrooms: Um Não-Lugar

A claustrofobia de nossos sonhos e memórias.

Quando saí de minha sessão de Backrooms: Um Não-Lugar, não pude deixar de reparar nos meus arredores: a textura do carpete da sala de cinema, o piso refletindo as lâmpadas do teto do lugar; os espaços vazios do shopping à noite; as muitas escadas rolantes que precisaria descer até chegar a um estacionamento quase vazio, com colunas e colunas repetindo-se ao longo do espaço. Em suma, peguei-me admirando, atordoado, ambientes que poderiam facilmente estar no longa.

O bizarro no cotidiano é algo que para mim é impossível não associar com David Lynch. Embora Kane Parsons, o jovem diretor desta adaptação da creepypasta, ainda não tenha chegado ao nível de bizarrice presente em obras como Twin Peaks, consigo muito bem visualizar o saudoso cineasta igualmente admirado com a competência visual de Backrooms: Um Não-Lugar.

image-1-1024x576 Crítica – Backrooms: Um Não-Lugar
(Divulgação/Imagem Filmes)

Situado em 1990, o longa-metragem conta a história de Clark (Chiwetel Ejiofor), um homem frustrado com a própria vida, e sua terapeuta Mary Kline (Renate Reinsve), que também tem suas próprias questões mal-resolvidas. Quando Clark encontra um portal para uma dimensão alternativa em sua loja de móveis e desaparece, Mary vai atrás para entender o que aconteceu de fato.

Uma premissa simples como essa poderia e seria desperdiçada na mão de um diretor convencional, transformando os Backrooms em um mero pano de fundo para a ação. Contudo, ao optar por planos mais abertos e longos, Parsons comanda o ritmo da história e a câmera valoriza cada metro quadrado da geografia sem sentido do local. E isso não é limitado apenas aos Backrooms, pelo contrário, pois o mundo real soa ainda mais falso que o próprio “Não-Lugar” que dá nome ao filme. Crédito total ao diretor de fotografia Jeremy Cox.

O amarelo monocromático desperta incertezas e o zumbido das lâmpadas fluorescentes, desconforto. E quando, em certas sequências, a obra referencia suas origens Found Footage no canal de Kane Parsons no YouTube, todos esses aspectos são elevados, e a natureza onírica da dimensão fica mais evidente do que nunca.

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Renate Reinsve como Mary Kline em Backrooms: Um Não-Lugar. (Divulgação/Imagem Filmes)

Entretanto, nada é perfeito, e o filme falha quando dá muito destaque para o passado de Clark, trazendo um horror mais tradicional que quebra a monotonia dos Backrooms com diálogos excessivos e redundantes, algo comum para vários filmes da A24. Isso poderia ser tranquilamente contornado se o personagem, tal como Mary, tivesse seu passado contado visualmente com flashbacks tão silenciosos quanto inquietantes, que, para mim, melhor combinaria com a atmosfera da narrativa.

Apsar disso, Backrooms: Um Não-Lugar, convence como terror psicológico ao usar seu silêncio (por vezes interrompido com uma trilha-sonora ambiente) e monotonia a favor de paralelos mais sutis, como a demência e o alzheimer. E ainda nos faz uma pergunta inquietante: quão bem nos lembramos dos lugares pelos quais passamos?

Nosso passado distante (aqui, 1990), tudo de bom e ruim que já vivemos, é nada mais que uma fita de memórias imperfeitas sob a interferência de agentes externos.

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