A Garota do Dia Antes Daquele

Pela primeira vez, sem cores, os dois primeiros capítulos do meu romance em desenvolvimento: “A Garota do Dia Antes Daquele”! (Sujeito a alterações)

1. JUNTOS NO CINEMA

Por trás de todo o apresso do cotidiano, um edifício de dois andares prosperava na cidade de São Paulo. Ninguém sabia exatamente como ele havia parado lá; a maioria acreditava que ele simplesmente se materializara, sem muito pensar a respeito das consequências cosmológicas que tal hipótese poderia sugerir.

A história que vou contar teve início — ou fim? — há não muito tempo assim perante a idade do cosmos, num desses dias de apresso, em 1978, numa cidade de São Paulo não muito menos agitada; na manhã em que Paulo de Menezes Batista — que de são nada tinha —, no auge de seus vinte e quatro anos, de cabelos e olhos castanhos e feições bem mais jovens, recém-desperto de indistintos sonhos de violência, saltou de sua cama desarrumada e foi diretamente ao banheiro a fim de escovar os dentes, tentando manipular sua falta de ânimo diário por meio de um exercício autoproposto em que deveria simplesmente fingir que nada estava acontecendo. Nada, exceto o trânsito para o trabalho, a ditadura militar e seus efeitos e o motor engasgado de seu Opala 68 verde usado, que também estava com a traseira gravemente amassada e sem o para-choque da frente. Nada, exceto todo o resto. Nada, assim como a imaginária vitória do Brasil há quatro anos, na Copa de 1974.

Descendo pela escada helicoidal metálica de cor vinho, já arrumado com a camisa e suspensórios e um pouco pronto para mais um dia de produtividade casual, Paulo atravessou sua grande sala com três sofás e uma modesta televisão de tubo com duas antenas. Chegou na garagem e, segurando o blazer marrom sobre o ombro direito, deu pulinhos atrapalhados e revirou os bolsos apertados até encontrar a chave de seu carro, esforçando-se para que o cinto mal colocado não se soltasse e deixasse-o somente de cueca diante do portão basculante frestado. Quando eles lhe perguntavam de forma despretensiosa a razão de um homem solteiro ter uma casa tão grande, ele geralmente dava de ombros e cortava o assunto ali mesmo, pois ninguém verdadeiramente se importaria com isso. Era apenas um fato, e fatos não devem ser questionados. Talvez nem ele próprio soubesse o motivo, ou se soubesse, havia muito que não se recordava.

Quando abriu o portão e girou a chave, o ronco do motor engasgado foi alto o bastante para vibrar as paredes e o piso da garagem, ainda que o som, pensava Paulo, se assemelhasse a um gorgolejo, como se o veículo estivesse se afogando na própria gasolina, sua fonte de alimentação, tão vital quanto filetes de sangue escorrendo de um pescoço cortado. Ele conferiu o retrovisor, checou o ponto cego e deu ré, deixando seu lar na Vila Ema, aonde futuras memórias navegariam alheias à história, presas a fotografias.

Paulo não olhou ao redor, preferindo prestar mais atenção a uma música de Elis Regina que tocava no rádio, seguindo o caminho de modo automático. Também não prestou a atenção na letra, mesmo que gostasse bastante da cantora; uma herança de sua mãe, Maria Francisca de Menezes Batista, que o criara sozinha por vinte anos até sua morte prematura por pneumonia em maio de 1974. Maria adorava Elis, e provavelmente adoraria a música que tocava naquele dia, como qualquer pessoa, até mesmo como nossos pais.

Então, no meio do caminho para o trabalho (uma filial de uma grande rede de alfaiatarias), envolto pelos distritos comerciais e industriais da Zona Leste, ele freou bruscamente assim que mudou de ideia. Não, não queria trabalhar naquele dia. Seria um desperdício, e ele sabia, ainda que não tivesse certeza do porquê. Ele era um alfaiate talentoso, talvez um dos melhores de lá, logo não seria demitido por faltar um único dia; além do mais, se necessário, tinha todos os equipamentos e capacidades para costurar em casa.

Paulo virou à direita enquanto era xingado a torto e a direito pelos outros motoristas. Sem saber exatamente para onde estava indo, foi parar no cinema, mais especificamente o Cine Marabá, no Ipiranga.

#

Um enorme cartaz colorido, com o imponente capacete de Darth Vader destacado acima do título, estava exposto na entrada do Cine Marabá. Paulo se pegou observando aquela placa, os heróis do longa-metragem, o nome do filme. Estava há muito curioso para assisti-lo, embora desconhecesse a sinopse e nem tivesse visto qualquer tipo de trailer na televisão; só conhecia de nome, Guerra nas Estrelas. Tão simples quanto efetivo. “QUE A FORÇA ESTEJA COM VOCÊ” era o que dizia o slogan do filme.

Guerra nas Estrelas.

Foi sabendo apenas o título que o rapaz, agora apenas de camisa e suspensórios (deixara o paletó no assento de passageiro), se deu por convencido e resolveu enfim assistir ao filme. O título e aquele capacete preto e imponente. Será que o personagem retratado era um herói ou vilão? Provavelmente um vilão; os mocinhos deviam ser aqueles à esquerda do pôster, vestindo branco. Vilões sempre vestem preto, mocinhos vestem branco. Preto quer dizer algo ruim, certo? Guerras são ruins.

Uma guerra estelar.

A guerra estelar, a maior de todas. A mais infame, sem dúvidas. Mas é claro que ele não pensou em nada disso conscientemente.

De alguma forma, esse suspense o excitava. Não sexualmente, é evidente, mas era um estímulo tão primitivo quanto o ato de copular; a mesma curiosidade mórbida e imprevisível que tinha em seus sonhos mais obscuros.

— Um ingresso para A Guerra nas Estrelas, por favor — disse Paulo, meio hipnotizado pelo ruído do ventilador atrás do bilheteiro, um som que de alguma forma se destacava em meio a uma multidão em ânsia para assistir ao longa, mesmo numa quinta-feira. Uma mulher de calça jeans e camiseta regata preta fumava ao lado da bilheteria, à esquerda do rapaz.

Paulo entregou uma nota de dez cruzeiros.

O bilheteiro, de camisa social branca, mangas dobradas, assentiu sorrindo, pegou a nota e passou o ingresso por baixo do vidro da bilheteria junto com o troco de Paulo, completamente alheio da quase total substituição de seus serviços pelo totem eletrônico quase quarenta anos depois.

— Obrigado.

Finalmente, quando Paulo deu as costas para entrar na sala, a mulher fumante disse:

— É guerra, truta, não tem “a”, morô? — Expirou a fumaça.

— Hein? — Ele voltou a atenção para a garota fumando atrás dele.

Ela parecia uma versão mais rebelde de Elis Regina, mas com cabelos ondulados que caíam por cima dos ombros, e… bem, na realidade, ela era bem diferente de Elis Regina. Bonita, é claro. Mas nada tinha a ver com a cantora. Sua mãe a teria detestado e dito que a fulana era linda de rosto, porém podre de interior, e que Elis jamais abusaria de seja lá qual o tipo de substância que aquela drogada devia estar se intoxicando com diariamente. Paulo, como para muitas coisas em sua vida, não saberia dizer por que a aquela fora sua primeira associação.

— Tu falou A Guerra nas Estrelas, mas é só Guerra nas Estrelas, saca? — Bateu o cigarro, deixando cair as cinzas no sapato de Paulo. — É tipo, sei lá, exemplo merda aqui, mas é como se você chamasse Rio: Zona Norte de O Rio: Zona Norte. Tipo, sem o artigo definido no início dá um senso maior de pertencimento, tipo isso, sacou, hã…?

— Paulo. Eu…

— Sacou, Paulo? Tipo, essa é uma guerra nas estrelas. Essa não é a guerra para acabar com todas as guerras, é só a que pensaram que mais valia a pena contar a estória, pode crer? Mesma coisa que chamar a Primeira Guerra Mundial de A Guerra Mundial, ou A Grande Guerra, que é como chamavam antes de terem inventado a Segunda. — Ela se viu rindo sozinha com o próprio raciocínio.

Mesmo sem entender — ao menos, sem entender conscientemente —, ele assentiu com a cabeça; a ideia era somente cortar logo o assunto e ir para a sala ver o filme em paz. No entanto, devido a confusão, misturada com o azedo aroma de seu próprio ranço da garota, ele continuou a conversa.

— Tão tá. E tu, sicrana, é…?

— Célia, Célia Brando de Sousa. — Deu outro trago, e estendeu a mão com o cigarro entre os dedos, quase só a bituca. — Vai um tapinha, irmão?

— Não, obrigado.

Ela jogou o que sobrou na lixeira verde ao lado.

— Pode crer. Aí, tu vai ver o filme, né?

— Bom, essa é a ideia de comprar um ingresso pra ver um filme, até onde eu bem sei, irmã Célia.

— Rá! Comprei um ingresso pra matinê, eu também. Engraçado o tanto de gente a essa hora, né não? Quero mesmo é ver o que é que tem de tão supimpa nesse troço.

— Legal — respondeu Paulo com rispidez. Olhou para o relógio no pulso esquerdo. — Já vai começar.

O homem se afastou e foi até a bomboniere do Marabá, pouco à frente da bilheteria, encostada na parede central do cinema. O cheiro de pipoca, refrigerantes e doces era forte, contudo nada enlouquecedor quando comparado à manteiga derretida escorrendo por entre os grãos estourados, sujando os dedos dos espectadores que esperavam ansiosamente por suas experiências cinematográficas; o som que suas mãos faziam ao segurar os sacos de papel com a pipoca até o topo.

— Uma pipoca e uma Coca-Cola, por favor… — hesitou, mas continuou: — Grandes.

Célia surgiu do nada. Havia o seguido sem ele perceber.

— Pipoquinha, irmão?

Ele deu uma risadinha debochada quase imperceptível.

— É, pipoquinha, irmã. Por que você não fica atrás de mim e espera para comprar a sua pipoquinha também?

— E você vai comer tudo isso aí sozinho, truta? — Ela notara o tamanho do saco de papel que estava nas mãos da atendente.

— Bom, essa é a ideia de comprar uma pipoca pra ver um filme, até onde eu bem sei.

— Pffff.

Célia levantou a voz e esticou a mão com o dedo indicador apontado, num gesto para dizer:

— Um refrigerante também, por favor!

— Vocês estão juntos? — questionou a atendente de óculos fundo-de-garrafa com aro preto, de avental vermelho sobre a camisa branca. — Se não tiverem, volta pra fila, moça.

— Não, eu nem sei quem…

— Estamos, sim!

 A atendente abriu um sorriso de canto de boca, não muito convencida.

— Cinema sozinha é uma por… é bem chato, senhora. Paulinho aqui é um grande amigo meu. O melhor. — Célia deu um tapinha nas costas do homem e sorriu.

Droga, pensou Paulo, não devia ter falado meu nome pra este bicho-grilo.

— Ele é meio careta, na verdade, mas é legal quando se conhece. Vambora, vamo, Paulinho? — disse Célia enquanto pegava os dois refrigerantes e deixava Paulo com a pipoca grande. Ela seguiu em direção a sala.

Paulo pagou por tudo e foi para a sala resmungando alguns palavrões.

Ele não sabia o que o guiava exatamente, mas sentiria uma espécie de apreço pela companhia garota naquele dia de apresso.

#

O Cine Marabá contava com apenas uma sala, entretanto era a maior de toda cidade de São Paulo. Seu formato de auditório garantia espaço para cerca de mil e oitocentos espectadores, contando plateia e mezanino, além de uma grande tela para os padrões da época. Assistir um filme no Marabá era um evento por si só, mesmo que se tratasse de uma obra de qualidade duvidosa.

Paulo e Célia se sentaram na extrema esquerda do mezanino, pois o rapaz gostava de ter uma boa visão da tela; sempre tinha preferência pelo assentos mais elevados quando ia ao cinema, então ali era o lugar perfeito. Infelizmente, para a garota, era mais afastado da maioria, que ficava na plateia, o que a impediria de incomodar casais desavisados. Mas que direito ela tinha de dizer ou fazer alguma coisa? Paulo havia pagado quase tudo por ela, a única exceção sendo seu ingresso. A única coisa em comum é que ambos concordavam que os cantos eram os melhores lugares se alguém precisasse se levantar para ir ao banheiro — não que um deles tenha admitido em voz alta.

— Tu viu algo a respeito desse filme? — perguntou Célia. Ela catou um pouco de pipoca e enfiou na boca.

— Não.

— Também não — ela disse, mastigando a pipoca. — Ei, sabe duma coisa?

— O quê?

— Acho que você não gosta de mim. — Pegou mais pipoca. — Tô de boa quanto a isso, aliás. Só pra tu não se preocupar, morô? Muita gente não gosta de mim, e eu tô tranquilíssima — Um pouco do cabelo dela entrou no saco. Paulo o tirou com a mão.

— Eu te conheci há dez minutos e você já tá querendo entrar na minha vida. Isso não faz sentido, mulher.

— E o que é que faz sentido, truta? Vir numa quinta-feira assistir um filme sozinho? Pelo amor, Paulinho. Tu não tem trabalho não?

— Sou alfaiate, consigo trabalhar em casa. Capisci?

— E eu dou aula pra criançada na creche, mas hoje tô de folga. Capisci?

Você?

— Eu gosto de crianças, ué — ela respondeu e tomou um gole de refrigerante — Não foi um deboche, aliás. Bem sei que tu não mentiu quanto a profissão. E eu também não tenho motivo para mentir.

— Quantos anos tu tem?

— Qual foi? Sabia que não é educado perguntar idade de mulher? E nem todo mundo que cuida de criança é tiazona. — Ela ofereceu o saco de pipoca a ele, que recusou fazendo um gesto com a mão esquerda. — Vinte e cinco Tu?

— Quatro.

Ela abriu um sorriso e, pela primeira vez, Paulo se viu admirando em detalhes como ela era bonita. Embora a luz da sala fosse fraca, conseguiu assimilar bem as pintas de seu rosto, os olhos castanhos e a curvatura do nariz arredondado; uma parte do cabelo ondulado caindo sobre o olho esquerdo. Por fim concluiu que a assimilação anterior de sua beleza foi o que acarretou a sua associação inicial com Elis Regina. O rapaz entendia que as duas nada tinham a ver no geral, no entanto partilhavam de uma beleza singular.

Estaria indo rápido demais?, ele ponderou. Sim, estaria. Não, ele sabia que não deveria se apaixonar ainda. Mal a conhecia; a conhecera fazia pouco mais de onze minutos. Doze minutos. E sua mãe não aprovaria. Não, não, não aprovaria.

Só doze. Doze.

Doze vezes dois.

— Meio novinho, hein, truta — debochou Célia.

— Vinte e quatro — mudou a direção do olhar para a tela, com pouca sutileza —, e meu aniversário é três de janeiro.

— Melhorou. Eu faço vinte e seis em vinte e seis de agosto, irmão Paulo. — Ela deu uma risada genuína. — Mas acho que posso fazer em três de janeiro também. E ter vinte e quatro também, se quiser. Meu aniversário é a gosto do outro.

Paulo soltou um arzinho do nariz, depois conferiu o relógio.

— Já era para estar começando.

— Não me diga, truta.

Então, segundos se passaram e minutos voaram feito pássaros no céu. E o filme não começou. Nem mesmo um mísero trailer ou propaganda. Paulo pôde ouvir as conversas das pessoas ao redor; as crianças brincando, adolescentes contando vantagem e pais e desempregados aborrecidos.

De repente, todas as luzes se apagaram e a escuridão tomou conta da sala de cinema. O filme iria começar? Se esse realmente fosse o caso, por que não já começara há vinte segundos? De fato, nada saiu do projetor naquele momento e nem mesmo as luzes de emergência foram acionadas. Estavam em blecaute, provavelmente por algum problema na elétrica do Cine Marabá.

As conversas ao redor cessaram, substituídas por acalorados sussurros de espectadores insatisfeitos.

Tique-taque. Quatorze minutos.

— O que tá… — tentou dizer Paulo, virando-se para uma Célia tão confusa quanto.

O projetor ligou. O zumbido do maquinário aumentou gradualmente, como um pernilongo sobrevoando as costas da cabeça.

Mas a imagem nunca apareceu; somente o brilho cinzento e ruidoso de uma televisão fora do ar. O zumbido discernível do projetor havia parado poucos segundos depois. O novo som, um ruído branco incomum, indeterminável; hipnótico.

 Célia olhou para ele e deu de ombros, em seguida apontou com a cabeça para acima deles. Paulo entendeu o gesto imediatamente. Eles se levantaram e saíram do mezanino, seguindo o caminho pelo corredor do cinema até que encontrassem a porta que dava para a sala de projeção. O edifício agora estava em um silêncio ensurdecedor, nem mesmo as crianças faziam mais algum barulho.

O rapaz sentiu um frio na barriga; sua pressão caiu um pouco. A despeito disso, seguiu a garota. Inconscientemente, teve certeza de que aquele era o dia de seguir impulsos e confiar nas ideias de desconhecidos.

Foram andando até uma porta com uma placa que dizia PROJEÇÃO – SOMENTE PESSOAL AUTORIZADO.

Célia bateu duas vezes com os nós dos dedos, sem obter respostas. Paulo só observou.

— Alguém aí? — ela disse.

A mulher deu logo mais cinco batidas, num ritmo não tão conhecido pelo nome Shave And A Haircut, Two Bits, contudo universalmente entendido e respondido em sequência com duas batidas igualmente ritmadas.

Os dois ouviram o tum-tum de resposta, e ela decidiu por bater no mesmo ritmo novamente. Tum-tum de novo. Testou outros ritmos, sem sucesso.

Que havia alguém na sala era certo, mas por que cargas d’água a pessoa só retornava o chamado após esses cinco toques específicos? Tum, tum-tum-tum-tum. Tum-tum.

O mais estranho, na verdade, era como as respostas do outro lado seguiam o tom das batidas de Célia. Se ela, por exemplo, utilizasse apenas os nós dos dedos, a resposta assim viria. Se desse socos, socos eram devolvidos; palmas retornavam.

Paulo, sem pensar muito, assobiou no ritmo, somente acompanhando. Depois, gelou a espinha quando seu sibilar foi igualmente correspondido por seja lá quem estivesse do outro lado da porta. Célia, de um jeito tão estranho que o rapaz não chegava nem perto de entender, permaneceu desafetada com relação ao mistério que contemplavam àquela hora.

Célia optou por enfim girar a maçaneta.

Quando a porta se abriu, notaram um projecionista estático, ao lado da mesa com os rolos de filme adesivados, braços rígidos, olhando pela janelinha do projetor. Eles voltaram a ouvir o zumbido tradicional.

— Oi? — cumprimentou Paulo, timidamente.

O funcionário se virou para eles, contudo só puderam ver seu rosto inexpressivo os encarando por alguns segundos, pois toda a sua pele estava se desfazendo, derretendo aos poucos como a cera de uma vela.

Em questão de instantes, o homem desapareceu espontaneamente, e o ar estalou quando ocupou o espaço onde ele estava.

2. O TELEFONE DE CÉLIA

Estar ali, naquele instante, trazia uma experiência similar à de ir a um museu e observar esculturas e pinturas, a diferença é que Paulo se sentia como sendo a exposição; estático, física e mementalmente, dentro da pequena sala de projeção do Cine Marabá. Ao seu lado, Célia ofegava, tão inquieta quanto ele.

Assim que o projecionista se escafedeu como se nunca estivesse existido, uma fina camada de poeira tomou conta do espaço onde ele estava há alguns segundos, seguida por um forte cheiro de carbono que se alastrou por toda a sala de projeção, daquele que o escapamento de um ônibus costuma fazer.

Paulo conseguiu dar um passo a frente, tentando encontrar um jeito de analisar friamente a situação de insanidade na qual ele se encontrava. O sucesso, ele sabia, dificilmente viria, mas não desistiu até vasculhar a salar em busca de respostas para o incidente — se é que uma explicação coerente seria possível.

Enquanto isso, Célia prestou atenção no projetor e no rolo de filme que fora colocado no carrossel. Sem pestanejar ou pensar muito, pegou a lata com tampa que estava mais próxima da máquina e conferiu a etiqueta adesivada: GUERRA NAS ESTELAS ESTRELAS, escrito incorretamente, rasurada e corrigida com um canetão preto. Resolveu por abrir a tampa metálica e notou que, com certeza, o rolo pertencia àquela lata; estava vazia. Então, fez algo diferente. Com cuidado, retirou o carretel, abriu-o, desenrolou o filme e pôs-se a analisá-lo.

À medida que o observava, surpreendeu-se ao notar que ele não contava com nada de o que se esperava de um filme: o rolo estava completamente em branco.

Tentando ser o mais racional possível, a mulher verificou fotograma por fotograma sob a luz fraca da fluorescente no teto da sala, porém nada, nem uma mísera imagem sequer, aparecia naqueles quadros, e isso era verdadeiro por toda a extensa fita preta.

Ela passeou com os olhos por todos os mais de cento e cinquenta mil fotogramas do filme, esperando encontrar algo diferente que captasse a atenção de sua vista; isso não aconteceu. Logo, por um breve instante, ocorreu a Célia que o cinema teria recebido uma versão defeituosa do filme, sem que as imagens tivessem sido copiadas para aquele específico rolo. No entanto, isso não explicava a origem do homem de cera que fora consumido pelo vazio cósmico poucos minutos antes. O mistério do rolo de filme talvez fosse o menor dos problemas.

A jovem colocou o rolo de volta no carretel e guardou-o na lata que abrira mais cedo. Havia decidido que o levaria para a casa, de um jeito ou de outro, para investigar mais a fundo. Sua curiosidade era grande demais para que se permitisse deixar passar a oportunidade.

Passou a segurar o recipiente circular debaixo do sovaco, pressionando-o contra o corpo para que não caísse.

— Tem nada aqui — ela disse a Paulo, dando batidinhas leves na tampa metálica da lata com o rolo de filme.

O homem, ainda fuçando em tudo que podia encontrar no lugar, suava frio, Célia percebeu. Ele respondeu, meio desatento:

— O quê?

— Disse que tem nada aqui, irmão. O rolo tá vazio.

— Como é?

— Não se faça de tonto, Paulinho. Tô falando que o filme que era pra estar aqui, não está. Tô pensando em ver se tem algo nas outras latas empilhadas.

Paulo deu de ombros. Célia foi para o lado com outros rolos. Deixou a própria lata no chão, ao seu lado, e começou abrir as tampas, desenrolando e verificando cada um dos rolos de filme que encontrara.

O primeiro que desenrolou era uma cópia completa de O Exorcista II – O Herege, lançado há alguns meses; o segundo, Contatos Imediatos de Terceiro Grau, também não possuía grandes defeitos visíveis, exceto alguns riscos leves na película. No terceiro, teve mais sorte para encontrar semelhanças; uma cópia de Tubarão com fotogramas faltantes, todavia a maioria ainda constava na película. Guardou no carretel e posicionou a lata em cima da outra que levaria para casa, e voltou a conferir o restante dos filmes.

Quando terminou, tinha um total de cinco latas de diferentes longas-metragens empilhadas uma em cima da outra: Guerra nas Estelas Estrelas, Tubararão, O Poderoso Chefão: PartiE II, Rocky, um lulutador e Taxi Driver: Motociclista de Taxi, todas com rolos defeituosos e faltando fotogramas, contudo nenhuma tão problemática quanto aquela que assegurava Guerra nas Estrelas. Outras semelhanças, Célia havia percebido, é o fato de que as cinco contavam com estranhíssimos erros de grafia, e que os filmes haviam sido lançados entre 1975 e 1978.

A mulher chamou Paulo, que havia parado de analisar o ambiente e fora esperar do lado de fora, para que ele a ajudasse a carregar as latas metálicas. O rapaz ficou com três e ela, duas.

— Tem certeza disso? — perguntou Paulo, encaixando as latas do jeito que dava por debaixo das axilas.

— Não — respondeu Célia, ríspida pela primeira vez no dia —, não tenho. Eu só quero entender, truta. Pelo menos isto, cara, pelo menos isto.

Ficou claro para ele que a mulher era do tipo que tentava ocupar a mente com levianidades, para assim poder evitar de pensar muito sobre o que a perturbava; o que a ambos perturbava: o homem de cera e seu rosto derretido, e sua desmaterialização súbita na sala de projeção.

Aquilo estava mesmo acontecendo ou não passava de uma espécie de sonho febril? A segunda hipótese parecia mais plausível. Mas se é um sonho, ele pensou, por que Célia me parece tão paralisada quanto eu? O certo não seria ela agir naturalmente quanto a tudo isto? Os flashes de memória de momentos anteriores deixavam-lhe nauseado. Sua mente completava os pedaços faltantes da cabeça do homem de cera derretida; as pupilas que escorriam por cima dos olhos azuis saltados, mucosa grossa saindo do nariz como borracha líquida, o cabelo como mercúrio em temperatura ambiente.

Ele tentou afastar todas essas ideias aterrorizantes olhando para Célia, buscando  conforto na confusão mútua. Se sentia melhor estando junto dela, ainda que não houvesse diferença entre ela e um bicho-grilo qualquer que protesta nos centros das cidades.

Ela retribuiu o olhar com um sorriso desajeitado. Estava desconfortável com tudo, é claro, no entanto o sentimento de união em meio ao caos era recíproco, mesmo que fosse junto de alguém tão careta quanto Paulo.

Deixaram a sala de projeção rumo ao corredor que levava à saída, às vezes espiando por cima do ombro.

E se o homem de cera retornasse, quem sabe?

Paulo tinha a intenção de somente deixá-la em casa com os rolos e ir embora, mas a curiosidade mórbida do dia e seus impulsos fizeram-no estacionar seu Opala defeituoso na rua, entrar na casa amarela, logo atrás dela, e não sair pelas próximas quatro ou cinco horas

Ele pensou que podiam, talvez, almoçar juntos.

Não sabia dizer se a indagação surgira por conta de seu estado de choque ou por uma vontade genuína de conhecer bem mais a repeito daquela “Elis Regina” de regata preta.

Quiçá um café?

#

A casa em que morava Célia era localizada ao lado de uma viela com dez outras casas, num bairro de baixa-renda na Zona Leste de São Paulo. Contava com somente um andar, há muito pintado de amarelo nas paredes externas; a tinta acrílica já descascava. Tinha um portão de ferro pivotante adornado com espigões, que tanto eram bonitos quanto protegiam a moradia de possíveis invasores, considerando que o portão era relativamente baixo, tendo apenas um metro e meio de altura. O quintal não era grande o bastante para caber um carro, e o solo era sua própria fauna e flora de ervas daninhas e formigas. À direita, algumas plantas embelezavam um pouco o terreno: uma samambaia pendente sob uma macieira sem frutos, um cacto plantado num vaso de cerâmica pintado de branco; pequenas flores, rosas, margaridas e girassóis em vasos, provavelmente compradas de vendedores que podiam ser encontrados na praça que ficava a menos de um quilômetro dali.

A mulher destrancou o portão e os dois entraram. Paulo observou o lugar, com atenção. Era bem diferente de sua enorme casa na Vila Ema, e um tanto quanto insegura e desconfortável na sua perspectiva. Ele acreditava que na dela também devia ser.

O rapaz a seguiu por um corredor externor de dois metros que se fechava em um beco sem saída criado pelo formato em L da casa, e dava para uma porta de abeto solta das dobradiças e apoiada sobre a parede interna, que servia de entrada para a sala de estar de Célia Brando de Sousa, ou, como Paulo pensou automaticamente quando a porta foi empurrada para o lado esquerdo, Jesus Cristo.

O espaço que devia ser a sala estava muito bem organizado e limpo, como ele esperava da pessoa que conhecera. Contudo, havia coisas que nem a pessoa mais arrumada seria capaz de consertar sem o dinheiro necessário. Imediatamente ele reparou a forma como umidade se espalhava pelas paredes e teto; as paredes brancas e quebradiças coloridas de verde-escuro pelos bolores que as faziam companhia. De cima para baixo, uma lâmpada fluorescente era sustentada por um único fio vindo do teto, acima da mesinha de centro imitando madeira e do sofá com estofo aberto, disfarçado por um cobertor da cor vinho que o forrava. Todo o piso da casa era o mesmo cerâmico branco gelado.

Célia e Paulo deixaram as cinco latas com os rolos de filme no tampo da mesa, espalhadas até onde cabiam e o restante empilhado.

— Vou… vou passar um café e lavar a louça — disse a mulher. — Tu quer, homem?

— Aceito.

Ela foi até a cozinha. Ele preferiu ficar na sala, abrindo e fechando as diferentes latas adesivadas, concentrado em perder a concentração, tentando encontrar algo idiota para fazer, pois Célia não tinha uma televisão. Acabou que ele conseguiu equilibrar uma das tampas circulares com a lateral na palma da mão por cerca de três segundos, antes de ela despencar no chão da sala, gerando um barulho alto de metal.

— Tá tudo bem aí? — Célia gritou da cozinha.

— Sim! Tudo certo — ele gritou em resposta enquanto pegava a tampa caída do chão e a encaixava de volta na lata correspondente.

Ela voltou com o café em duas xícaras marrons Duralex. Deu uma para seu novo amigo. Paulo tomou um gole.

No sofá, eles começaram a conversar.

— Você é daqui mesmo? — perguntou Paulo, buscando conforto na normalidade.

— Pode crer que sou, irmão — ela respondeu, sorrindo. — Digo, não desta casa em específico, mas sou da ZL desde 1952, e a ZL é de mim desde 1952. Ou seja, minha vida toda. E tu?

— Sou, sim. Só moro um pouco longe, na Vila Ema.

— Pode crer. Nunca fui pra aqueles lados, sendo sincera. — Tomou um pouco do café. — Ô, tu curte música, né? Claro que curte, tô vendo na sua carinha, nem adianta esconder.

— Na verdade, não escuto muito.

— Já falei que não adianta esconder — disse, se levantando do sofá e indo até um dos quartos no corredor a frente.

Ela voltou com um LP e um toca-discos. Plugou o aparelho na tomada e inseriu o disco, alinhando a agulha em cima da primeira faixa.

Um rock progressivo começou a tocar.

— Agradável — disse Paulo.

— Pensei que tu fosse mais careta. — Sorriu.

— Eu gosto do som.

— Ótimo… então — ela mudou de assunto —, quero verificar melhor esses rolos. Eu tenho uma amiga que trabalha num cinema da Zona Sul, e ela tem um amigo que é projecionista lá.

Paulo concordou com a cabeça.

— Qual o plano?

— Ligar e ver se ela pode me passar o número do fulano.

— Parece bom.

— Sim. Mas tu tem que entender, truta, que nada disso — apontou para as latas guardando os rolos de filme — pode sair daqui — fez um gesto com as mãos para indicar a a própria casa —, morô?

— Não, não morei.

A quebra de expectativa foi muito grande para Célia manter a postura. Ela tentou segurar com toda a força que pôde, porém começou a rir mesmo assim. Então, em alguns instantes, a risada fraca evoluiu, transformando-se numa gargalhada anasalada que Paulo achou relativamente fofa.

MORÔ, MORÔ, “MOREI”! — ela berrou, não conseguindo manter o ar dentro dos pulmões por mais que alguns centésimos de segundos.

— Tá tudo bem?

— Tá, sim! — continuou rindo, até que o som do gargalhar fosse interrompido e ela começasse a rir para dentro, sem emitir barulho além da já ofegante respiração.

O rapaz deu um risinho. Achava graça do jeito que ela começara a rir de uma piada tão boba e ingênua. Era algo extremamente simples, porém fofo à sua maneira; único, só que sem se tornar exótico a ponto de afastar as ditas pessoas normais de seu redor. Mas, afinal, o que seria de fato a normalidade? Paulo já não tinha mais tanta certeza.

Célia prosseguiu com as gargalhadas por mais uns trinta segundos. Quando começou a se recompor, enxugou as lágrimas e respirou devagar, vez ou outra soltando um ar pelo nariz.

— Tá, tá… — ela disse. — Essa foi boa… “morei”… enfim… eu vou… vamos p-pegar o telefone. Eu deixo na cozinha. 

Não chegaram a terminar o café antes de se levantar, mas levaram as xícaras e continuaram com os bebericos. Ao fim do corredor, chegaram à cozinha.

O cômodo era possivelmente o mais agradável da casa inteira. A pia, à esquerda do fogão a gás, estava numa bancada de mármore muito arrumada e limpa. No secador, três pratos recém-lavados pingavam sobre a bancada. Na parede oposta, uma geladeira verde-água fora apoiada sobre um pedaço de papelão que improvisava um pé faltante.

Um telefone de disco marrom estava na parede do lado direito da porta que dava para os fundos da casa. Diferente da entrada da frente, aquela fechava e abria normalmente.

— Ela deve estar no trabalho a essa hora, a Maria — disse Célia. — Me passou o número do cinema, caso eu precisasse ligar.

O disco foi girado seis vezes antes que o aparelho começasse a tocar. Entretanto, o tempo passou e não houve resposta. Ela rediscou.

Nada.

Tentou mais três vezes. A quinta poderia ser a da sorte, ela imaginou.

Mas não foi o que aconteceu. Nenhuma voz foi ouvida do outro lado, nem mesmo um colega de serviço.

Talvez fosse azar, eles pensaram. Não era impossível. Poderia estar passando Guerra nas Estrelas naquele momento, ocupando todas as salas do cinema que Maria Rosa trabalhava, impedindo quaisquer oportunidades de contato com o exterior. Sim, devia ser isso. Com certeza era isso. Suceder com as ligações só resultaria numa conta de telefone maior ao final do mês, e Célia Brando de Sousa não fazia parte dos grupos mais abastados da sociedade para não se preocupar com isso.

— Ela tava doente. Deve estar em casa — recordou.

Girou o disco mais seis vezes. O telefone tocou uma, duas, três, quatro; dez vezes, mas ninguém atendeu.

— Talvez… talvez esteja dormindo — ela disse. Pela primeira vez, Célia soava insegura.

Sim, era isso. Estava dormindo, mas já acordaria para ver quem tanto a ligava. Então as duas conversariam por dez minutos sobre qual era o jeito certo de levar a vida, Paulo ficaria entediado em segundos, sendo o careta que era, e depois ela pediria o número do amigo projecionista de Maria Rosa e isso reiniciaria a discussão sobre qual era o jeito certo de levar a vida.

Você tem que parar de pedir número de homem pra mim!, ela ouviu a voz de sua amiga ecoar dentro da própria cabeça e riu sozinha.

Ligou mais uma, duas, três vezes, sem sucesso. Ela deve tá dormindo. É, é isso.

— Dormindo…

Enganchou o telefone de volta. Aos poucos, seus ritmos cardíacos aceleravam, sem que nenhum dos dois entendesse exatamente o porquê.

Por fim, como num despertar súbito, tal qual o espasmo desconfortável de um sonho de queda livre, veio à mente de ambos, quase que ao mesmo tempo, o fato de não terem encontrado ninguém desde que deixaram a sala de cinema horas atrás.

O silêncio ensurdecedor do Cine Marabá não se tratava de um mero desconforto decorrente do estranhamento pela diferença sonora da sala e de seus corredores. Enquanto Paulo dirigia rumo à casa de Célia, eles realmente não viram ninguém atravessando a rua ou em outros carros. Diabo, nem sequer havia carros na rua.

Mas, até então, eles se encontravam distraídos em decorrência do estado de choque após o encontro com o homem de cera. Tão distraídos que não notaram nenhuma dessas coisas, pelo menos não até aquele momento infeliz.

Imediatamente perceberam que o que testemunharam na sala de projeção não havia sido um caso único. Acontecera com todos em São Paulo, provavelmente no Brasil inteiro.

Quiçá um café.

Quiçá no mundo.

Talvez pudessem soltar os gritos de desespero presos nas gargantas. Àquela hora da manhã, os vizinhos dificilmente se importariam, mesmo.

E se vocês acham que vou mostrar mais do que isso, estão redondamente enganados! Porém, espero que tenham gostado deste início!

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