A.I.: Inteligência Advogada

Um conto de comédia inspirado em ‘Phoenix Wright: Ace Attorney’ e ambientado no universo de ‘Carimbo Abstrato’, um livro escrito por mim.

Este texto foi originalmente publicado no Medium.

Era um outono frio, e a juíza Carla Silveira, uma mulher negra e imponente, iniciava uma importantíssima audiência: o julgamento de Um Homem Chamado Félix pelo assassinato do herói nacional, um outro homem que-não-era-Félix, o policial Francisco Neves.

Um Homem Chamado não tinha dinheiro algum para contratar um advogado particular, o que não seria um problema caso o homem não tivesse negligenciado seu direito a um defensor público. Na verdade, o rapaz tinha outra ideia em mente.

— Começando o julgamento de Um Homem Chamado… — disse a juíza, toda imponente com aquela peruca peculiar, hesitando continuar. — Um Homem Chamado Félix, isto está correto?

— Sim, Meritíssima. Meus pais acreditavam que eu seria um grande mistério no futuro.

Mesmo confusa, ela respondeu:

— Veremos se continuará tão misterioso quanto diz. Começando o julgamento de Um Homem Chamado Félix. — Bateu o martelo, e virou-se para o promotor César Público. — Por favor, promotor Público, chame a primeira testemunha.

O homem, vestido despojadamente, a franja tapando grande parte de seu rosto pálido de alguém que não saía do quarto há anos, concordou com a cabeça. Em seguida, ajeitou seus óculos escuros não-tão-estilosos com o dedo médio, apontado disfarçadamente para o réu, e pôs-se a gritar como se estivesse em um jogo de cartas de poder:

— Invoco a testemunha… Michel Carlos! — E bateu com força na mesa.

Vai ser um longo julgamento…, pensou a juíza com a mão esquerda no rosto.

Instantes depois, um homem peculiar com implantes ilegais entrou na sala. Michel Carlos era muito marcante, muito pelo fato de seus olhos de vidro e o nariz de pica-pau ladrões de atenção.

Sob juramento, ele se sentou e começou a depor.

— Eu estava me arrumando para sair para o trabalho, quando ouvi um barulho estranho vindo da rua. Olhei pela janela de meu apartamento e vi um homem com uma arma, parado e olhando para um corpo… o corpo da vítima, Meritíssima. Inclusive…

Ela assentiu, ignorando o que Carlos pretendia falar.

— Réu? Algo a dizer em sua defesa? — perguntou Carla, sabendo que o suspeito rejeitara seu direito a um defensor público.

— Isso confirma a culpa do réu, Meritíssima — disse César Público.

Félix meneou.

— Muito bem, declaro o réu, Um Homem Chamado Félix…

— Mas ele, sim! — exclamou Um Homem, chamando a atenção da juíza.

— Espera, ele quem?

— Ele! — E apontou ferozmente para o Dispositivo Sistemático Tangencial (DST) em suas mãos. — O meu fiel defensor CTPI, o Chat Trabalhador Pontual do Inocente!

Todos do tribunal ficaram mudos, totalmente constrangidos pela situação inconcebível que foram postos a teste.

Carla quebrou o silêncio:

— E o que isso seria?

— Meu advogado.

Ela suspirou.

— E o que essa I.A. tem a dizer?

— Não fale assim dela! Ela é uma ótima advogada!

Agora foi a vez do promotor Público suspirar. O homem respondeu à situação, sarcasticamente:

— Bom, sabe muito bem que “I.A.” pode significar muitas coisas, entre elas “Inteligência Advogada”. — Riu. — Muito bem, o que seu advogado tem a dizer sobre o depoimento da testemunha?

— Isso aqui. — Félix deu play na resposta.

Todos ficaram levemente chocados, tanto pela burrice quanto pelo preparo. De fato, ao menos o réu já havia gravado todo o testemunho de Michel Carlos para que sua Inteligência Advogada pudesse responder depois. Ele sabia bem o que planejava.

A I.A. respondeu:

— Puxa, isso parece muito perigoso! Fico feliz que não tenha se machucado quando isso aconteceu. A melhor opção é sempre tomar cuidado e chamar a polícia quando se vê diante de uma situação suspeita! O que aconteceu depois?

— Eu chamei a polícia — respondeu Michel.

— Isso é ótimo! O dever de um policial é ajudar os cidadãos. Quer ouvir uma curiosidade sobre a polícia?

Todos bateram as mãos nas testas. Um Homem Chamado deu um sorriso nervoso.

— Creio que seja um problema técnico — disse, rindo de nervoso.

— Bom, creio que isso seja o bastante — concluiu Público. — Isso demonstra que o réu não tem provas de que quem assassinou o oficial Francisco Neves foi outra pessoa que não ele!

A juíza assentiu. No entanto, quando estava perto de bater o martelo para dar o veredito, CTPI, com a programação mais destemida do que nunca, respondeu a última frase de César Público:

— Claro, pesquisando a respeito de Francisco Neves… aqui! Francisco Neves foi assassinado durante uma investigação sobre o tráfico de drogas desenfreado na cidade de Desajeito. Algumas semanas antes, o homem foi suspeito da matar sua mulher e filha por não gostar do namorado de sua prole, Um Homem Chamado Félix!

— O quê?! — exclamou a juíza. — Como isso não estava presente nos relatórios?!

Estavam todos embasbacados. Michel, porém, não estava mais lá: saíra escondido do tribunal por motivos que ninguém sabia.

Público franziu a testa.

— Protesto! — ele exclamou. — Isso não vem ao caso!

— O caso recebeu atenção da mídia, mas teóricos da Rede Tangencial alegam que foi acobertado pelo então promotor público César Público — continuou a “Inteligência Advogada”. — Muitos protestos foram realizados por grupos nichados de Desajeito, infelizes com a falta de investigações a respeito do caso, e em busca de justiça por Mariângela Neves e sua filha Agatha.

A juíza quase caiu da cadeira. Não via algo assim há muitos anos.

— Então, talvez esse caso mudasse para homicídio passional, pois o réu teria uma motivação para se vingar da vítima… — ela disse em voz alta, meio teorizando e meio falando para o promotor Público, que já estava muito irritado.

— Eu sou inocente! — exclamou Félix.

— Protesto. É uma farsa. Meritíssima, me desculpe, mas as acusações da defesa são completamente infundadas. Muito bem sabemos que a mídia não tem tanto poder de divulgação assim; não desde a proibição dos Holo-Computers para o público!

— Protesto negado. Segundo a própria defesa, o caso não havia recebido a atenção devida, e o senhor ainda poderia ter acobertado o pouco de atenção que ele receberia.

— Sim, os protestos foram ignorados pelo Estado. Em pouco tempo, a repercussão desapareceu quase que por completo. Você gostaria de saber mais sobre o caso? — perguntou a Inteligência Artificial.

— Sim, por favor — respondeu Carla. — Conte-nos mais a respeito do envolvimento de Público no caso.

— Alguns dos boatos alegam que, como o promotor César Público era um grande amigo do oficial Neves, presente em todas as cerimônias e premiações nas quais o policial era recompensado pelos seus serviços, estaria acobertando o desenvolvimento do caso para que seu colega não sofresse as devidas consequências.

— Protesto! — berrou Público, publicamente para todo o tribunal ouvir. — Falácias! Eu nunca havia visto aquele homem antes do caso de hoje!

— Negado — ela respondeu. Voltou-se para CTPI. — Há alguma prova de que eles eram amigos?

A I.A. enviou uma matéria: “Oficial Francisco Neves recebe a Medalha do Heroísmo, por suas ações de extrema bravura”. Tá mais pra extremo machismo. Junto da notícia, uma foto do policial com um terno e sobretudo pretos ao lado do promotor Público, bem mais arrumado que no julgamento em que acusava Félix.

— Isso prova o que a I.A. disse. Creio que precisaremos reformular o julgamento. Recesso de cinco minutos…

Entretanto, antes que ela pudesse martelar, Michel Carlos entrou correndo no tribunal, surpreendendo a todos.

— Interrompam o julgamento! Tô trazendo a prova definitiva aqui!

— Sr. Carlos, onde você… — Ela notou algo na mão direita dele. — O que é isso?

— Uma foto que eu mesmo tirei na noite do crime. Sabia que não me ouviriam de forma convencional, então esperei para que chegassem ao clímax do julgamento para que eu pudesse voltar correndo de uma maneira super dramática e estilosa — disse, rindo da situação ridícula.

A juíza revirou os olhos, desacreditada.

— Certo… deixe-me ver essa “prova”.

Ele entregou a foto para inspeção da autoridade. Em seguida, Carla caiu de verdade da cadeira. A imagem revelava que o homem em questão era o Sr. César Público, o verdadeiro autor do homicídio.

— Você! — ela exclamou, apontando para Público. — Você sabia que estava condenando um inocente porque você é o assassino!

Desacreditado, mas sem ter para onde correr, César gritou:

— Desgraçados! Era o plano perfeito! O velhote era o único que tinha provas do meu alto consumo de pornografia!

— Consumo de pornografia… — refletiu o réu. — CP, César Público! Estava tudo na nossa cara!

— Isso não tem nada a ver com nada! Você é idiota, por acaso? — berrou o promotor, ainda mais furioso.

Confusa, a juíza questionou o promotor:

— Mas vício em pornografia não é um crime. Por que matou o oficial?

— Bem… eu… não irei depor! Mas que seja, eu sou culpado! Me prendam!

Um Homem Chamado Félix, Michel Carlos e todos os presentes puderam assistir a juíza declarar o veredito de culpado para o homem que o fizera de bode expiatório. Mais tarde, César Público ainda seria julgado novamente por outra infração, porém inocentado devido ao testemunho inacreditável de um padre local. O povo nunca soube exatamente qual era sua afronta da vez, e ele nunca mais falou a respeito de seu consumo de pornografia.

Então, finalmente aliviado e grato pela defesa impecável de CTPI, Félix saiu pela porta da frente do tribunal, ainda enlutado pela morte da amada, contudo com uma fagulha de felicidade por conta da pena de cinco anos e meio que o assassino do assassino recebera.

Este conto é ambientado no universo de ‘Carimbo Abstrato’, meu livro! Compre aqui!

Gostou do texto? Compartilhe com seus amigos e leia meu outro conto…

Minhas redes sociais: X e Instagram.

Please follow and like us:

Publicar comentário