Estranhos™

Este texto foi originalmente publicado no Medium sob o nome de Trovejar.

Clarice, de olhos verdes e bem abertos, empinava uma pipa quadriculada de várias cores — azul, laranja, verde, roxo, entre outras — no quintal de sua casinha de blocos de madeira empilhados. Com o carretel vermelho na mão, ela olhava para cima, assistindo o objeto quadrilátero sobrevoar sob um céu escuro que dava os primeiros sinais de uma terrível tempestade; não que ela se importasse, pois sabia bem a desgraça que causaria àqueles adultos Estranhos™ que viviam na cidade, vagando sem rumo feitos zumbis inconscientes, alheios e, ao mesmo tempo, viciados à própria matéria.

A menininha não conseguia pensar em muitas coisas além de seus membros travados e as peles derretidas, os efeitos colaterais oriundos da Grande Fornalha. Quando ainda estava na cidade, escondida e temendo por sua vida, Clá ainda podia perceber bem os olhos inumanos de cristal, que brilhavam no escuro procurando possíveis sobreviventes, mas sem saber exatamente a razão; viviam pelo impulso. A garotinha estava sozinha há uns bons meses, desde que fugira em busca de melhores condições — as menos assustadoras — improvisando no que podia para aproveitar bem o pouco da infância que lhe restava. Tinha dezoito anos.

Levou um susto de um trovão. O espaço de tempo entre ele e o raio foi de cinco segundos, o que permitiu sua dedução de que o relâmpago tinha acontecido a não mais que dois quilômetros de sua casa. Ela enrolou o carretel, baixando a pipa quadriculada e guardando-a debaixo do braço. Clarice correu para sua casinha de blocos de madeira empilhados e pintados de forma a parecer tijolos, uma de suas tentativas de brincadeira que acabaram por ser mais úteis do que imaginava. Lá dentro, rapidamente empurrou blocos separados para se trancafiar e evitar a chuva. Outro trovão.

O breu da casinha de blocos era incomparável. A garota não tinha nenhum objeto para iluminar, já que morria de medo de incandescer a madeira hiperssensível de seu abrigo de brinquedo por acidente. Quando queria comer, assava o que encontrava na fogueira que fez com as carcaças de adultos Estranhos™ que vivia achando estirados ao redor. Diferente daqueles encontrados na cidade, estes eram bem menos robustos e queimados, e seus olhos de cristal, origem de todo seu temor, estavam desativados há anos.

Clá deitou-se no chão de grama sintética áspera, contando carneirinhos na intenção de cair no sono até a tempestade acabar. Entretanto, no momento em que refletiu que sua casa poderia ser o alvo fácil de um raio, perdeu-se na contagem. Respirou devagar, invisível a si própria naquele escuro com cheiro de madeira molhada, e voltou a contar.

— Um, dois…

Um ronco nos céus.

— Cinco, seis…

A Fornalha queimando a pele dos Estranhos™.

— Dez…

A imagem de mil bombas caindo, consecutivamente, sendo substituídas por carneirinhos pulando uma linda cerca de madeira enfeitada para festas juninas: onze, doze, treze…

Em algum lugar da cidade, o cheiro de Estranhos™ queimados vazava pela boca da Grande Fornalha.

Gostou do conto? Compartilhe e leia mais aqui.

Siga-me nas redes sociais: X e Instagram.

Please follow and like us:

Publicar comentário